Se estamos de acordo sobre a decisão de encerrar o maior número possível de centrais termoeléctricas alimentadas a carvões, falta garantir que os recursos minerais e energéticos utilizados na produção de energia através de fontes renováveis são sustentáveis em toda a linha e que estão de acordo com as promessas que nos são apresentadas.

Antecipando uma decisão estratégica nacional, mas essencialmente por falta de matéria-prima, 20 de Novembro de 2021 marca o dia em que, com o encerramento da central termoeléctrica do Pego, a produção nacional de energia a partir de carvão terminou definitivamente. Celebram-se, e bem, os avanços que esta medida produzirá na concretização da neutralidade carbónica e consequentemente na resposta nacional à crise climática. Uma estratégia que tem tido como bandeira o investimento na produção de energia através de fontes renováveis, nomeadamente a energia solar e eólica.

Sobre o encerramento da central do Pego fica a faltar pensar e discutir os desafios que desta decisão resultam, e que estão intrinsecamente associados à transformação da matriz energética. Antecipar as metas da descarbonização de forma justa, como afirmou o ministro do Ambiente no dia do encerramento da central do Pego, implica obrigatoriamente considerar as previsíveis dificuldades de gestão dos recursos minerais e energéticos da Terra que são um componente primordial das tecnologias associadas à energia verde. É um problema multidimensional que, não sendo acautelado hoje, poderá gerar num futuro próximo uma crise climática e de recursos semelhante à que atravessamos neste momento. O resultado será um futuro igualmente hipotecado.

A face mais óbvia destes desafios prende-se com a necessidade de encontrar e explorar minerais críticos, como a grafite, o cobalto ou lítio, que são, por exemplo, essenciais na construção de geradores eólicos e painéis fotovoltaicos. A tecnologia associada à geração de energia verde é sorvedora deste tipo de recursos naturais. Acresce que os principais depósitos destes minerais existem em poucas localizações no globo. Como as fontes de energia renováveis não garantem uma produção de energia constante, têm momentos em que a produção é maior do que as necessidades dos consumidores. Nestes períodos a energia 2 gerada é armazenada em sistemas de baterias de grandes dimensões, de modo semelhante às baterias dos automóveis eléctricos. Também aqui os minerais críticos, e em particular o lítio, são elementos centrais para o sucesso da tecnologia.

Se estamos de acordo sobre a decisão de encerrar o maior número possível de centrais termoeléctricas alimentadas a carvões, falta garantir que os recursos minerais e energéticos utilizados na produção de energia através de fontes renováveis são sustentáveis em toda a linha e que estão de acordo com as promessas que nos são apresentadas. Atingir este objectivo implica que a moderna indústria mineira garanta a sustentabilidade dos recursos não só durante a sua exploração e produção, mas também ao longo de toda a complexa e longínqua cadeia de fornecimento desde a sua origem até ao consumidor final. Que todas as etapas sejam monitorizadas em tempo real através, por exemplo, da implementação de técnicas semelhantes ao blockchain.

A prática desta nova geração de operações mineiras passa pela digitalização, automação, aquisição e processamento de grandes quantidades de dados, frequentemente com recursos a métodos de inteligência artificial (ou aprendizagem estatística) de modo a optimizar os processos e produzir o menor impacto possível. É neste ponto que entramos numa outra dimensão desta discussão que é frequentemente ignorada. Para cumprir estes objectivos é necessária uma grande capacidade de computação e de armazenamento de dados em contínuo. Uma infra-estrutura que, para além de requerer grandes quantidades de energia para funcionar, é também construída em cima de tecnologia que tem na sua génese os minerais críticos e raros. A solução poderá alimentar o problema que todos estamos empenhados em resolver.

Enquanto fugimos dos combustíveis fósseis, optimizamos processos e apostamos na digitalização do planeta Terra, é possível que, sem um planeamento concertado, este caminho nos leve a uma nova dependência em recursos naturais que são já hoje escassos. A transição 3 energética justa, que não deixe ninguém para trás, depende de como lidamos com estes desafios no presente.

In: Jornal Público